Esperei esse dia por mais de um ano, desde que ele sofreu um AVC e ficou bastante fragilizado. Na realidade, o AVC só tirou a sensibilidade de uma de suas mãos, mas de lá pra cá o quadro piorava, como se fosse o início de uma despedida.
Ele começou mesmo a morrer há dez anos atrás, quando fez setenta anos e foi obrigado a se aposentar de suas funções como advogado do Banco do Brasil. Desde então, entrou numa de fazer mil empreendimentos: construiu uma estufa de flores, comprou uma banca de jornal, virou síndico do prédio… Tudo pra não ficar parado e, segundo ele, não aguentar minha avó o dia inteiro, senão o casamento iria perder a graça…
De um mês pra cá, ele descobriu ter leucemia e ai então realizei que sua morte estava próxima de verdade, tanto é que neste mês ele ficou no hospital e não tive coragem de ir visitá-lo. Já havia ido antes, e na última vez que o vi, em casa, no Dia dos Pais, me doeu muito vê-lo deitado na cama o tempo inteiro, reclamando de dores e sem sua habitual mobilidade.
Logo ele, que nunca ficava parado. Era difícil até pros seus netos conseguirem passar um tempinho com ele depois dos almoços de domingo, quando o velho resolvia sair pra bater pernas, sabe-se lá onde.
Preferi não ver suar dor e, sinceramente, rezava pra que ele fosse logo, sem sofrer mais. A dor mais forte que ele sentia não deveria ser a física, mas a de saber que dependia dos outros e que não podia ir onde bem entendesse, como sempre fez.
Enfim, esse é só um desabafo e uma despedida. Um peso saiu de meus ombros, sabendo que ele está livre agora…
Descanse em paz.
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